José Airton: PT fora do pleito inviabiliza aliança com MDB

A aliança entre PT e PDT no Ceará, em âmbito estadual, tem estado em cheque em meio a movimentações para a disputa pelo Governo do Estado em 2022. O deputado federal José Airton Cirilo (PT), um dos principais defensores da tese de seu partido ter um candidato próprio, está em diálogo com o próprio ex-presidente Lula, sobre a questão, e lembra que ceder o espaço ao PDT pode inclusive afastar possíveis aliados importantes, como o MDB do ex-senador Eunício Oliveira. Essa e outras questões foram tratadas em entrevista concedida por ele a O Estado, que você confere abaixo:

O Estado. Tem alguma iniciativa sua hoje na Câmara Federal que você destaque como mais importante?
José Airton. Apresentei uma proposição para substituir a prova de vida presencial do idoso aposentado, pensionista, pela declaração de Imposto de Renda. Esse projeto, na minha leitura, é um dos mais importantes, porque ele evita o constrangimento do deslocamento, e a declaração substituiria o que se chama de prova de vida. As pessoas distantes vêm, se deslocam para as agências para provar que é vivo, e tem muita gente sofrendo com isso. Foi um dos projetos que, ao meu ver, tem um alcance social muito importante.

OE. Como tem avaliado as mudanças da reforma eleitoral no Congresso?
JA. Ficamos numa situação desconfortável, porque entrou na pauta a proposta que é um conjunto, o distritão e o distrital misto, e houve um destaque para volta das coligações. Foi feito um acordo rejeitando o distritão e a gente aprovou o retorno das coligações. A gente gostaria que houvesse um debate para aperfeiçoar a legislação, mas que estabelecesse algum mecanismo que desse mais representatividade aos eleitos do que se tem hoje no sistema proporcional – que, ao meu ver, nem ele nem o distritão permitiam uma representatividade justa. Porque, na verdade, o distritão era um sistema verticalizado, em que os mais bem votados entravam, isso a meu ver favoreceu muita concentração de poder econômico, então é um modelo que acaba criando uma distorção na representação. E por outro lado, esse nosso atual sistema proporcional, sem coligações, acaba também criando uma pulverização, porque os partidos são obrigados a apresentar uma grande quantidade de candidaturas e isso acaba, no meu ver, criando uma pulverização de candidaturas sem representatividade.

OE. Você é um dos principais defensores de o PT lançar candidato próprio ao Governo do Estado. Como essa discussão vem andando no partido?
JA. Penso que há uma nacionalização da conjuntura política no Ceará, em função não só da polarização que está entre o governo de direita e o Lula, mas há também uma situação atípica do Ceará com a candidatura do Ciro [Gomes], que vem há muito tempo atacando o PT e o Lula, e com isso gerando uma situação de instabilidade. Existe a necessidade de termos um palanque leal para o presidente Lula no Ceará, para construir um projeto de avanço no estado para alinhar com o projeto nacional, com os mesmos ideais, com o mesmo propósito. Eu penso que aqui no Ceará é inaceitável o PT ceder a cabeça de chapa para o PDT. Eu defendo até aliança com o PDT, desde que o PDT se mantenha na vice. E também é importante que, se o PT não lançar o candidato, isso inviabiliza também a participação de outras forças políticas nesse palanque, como caso do MDB, representado aqui no Ceará pelo Eunício [Oliveira], que foi um senador atuante, e portanto vamos deixar de ter um aliado como o Eunício no Ceará para ceder a cabeça de chapa para o PDT.

OE. Com o ex-presidente Lula de passagem no Ceará, você vai pôr essa questão em pauta com ele?
JA. Com certeza, vou colocar toda essa situação de inconformismo das lideranças do PT. Porque não sou só eu, são vários grupos, forças políticas que não concordam com essa posição subserviente e de entreguismo do PT, então vamos colocar para o Lula e para a Gleisi [Hoffmann], presidente nacional [do partido]. Porque esse debate também só vai acontecer depois da reforma eleitoral, a partir de outubro, porque houve uma resolução do PT proibindo qualquer decisão ou indicativo de candidato agora, então isso vai necessariamente passar por uma decisão nacional do PT, não vai ser uma decisão só aqui do Ceará. Porque é uma eleição nacionalizada, e aqui no Ceará é a mais nacionalizada, considerando o fato de o Ciro ser candidato.

OE. Para a eleição presidencial, fala-se muito de uma polarização entre Lula e Bolsonaro, com uma terceira via tentando se viabilizar. Acha que ela deve conseguir?
JA. Penso que ainda está cedo para estabelecer o que pode acontecer, eleição é algo muito dinâmico. Eu acho que já tem uma polarização estabelecida entre Lula e Bolsonaro, mas as forças mais de centro, que apoiaram Bolsonaro, ou aqueles arrependidos talvez eles vão querer formatar uma terceira via. O problema é que o Ciro não consegue se credibilizar para unificar essas forças mas à direita ou do centro, ele acaba atacando Lula, PT, e na minha leitura perde credibilidade.

Porque o Ciro acaba falando muitas inverdades, sendo muito leviano nas suas colocações, então ele acaba perdendo a confiança, a credibilidade de vários segmentos e setores diferentes, até empresariais, que não confiam no Ciro pelo discurso bem leviano que acaba fazendo para se constituir como alternativa. Então acho que ainda está em curso um processo, porque essa questão só vai ser definida para o eleitor lá para março do ano que vem, porque aí teremos o período de desincompatibilização, onde o tabuleiro dos atores – principalmente governadores e candidatos para o Governo – vão estar mais definidos. Então tem muito chão pela frente, tudo ainda pode acontecer.

Mas é certo que Lula hoje se estabelece e consegue se contrapor [ao Bolsonaro] até pela sua história, e se constitui como a esperança de resgatar programas sociais e estabilidade econômica e política do país, e sobretudo credibilidade internacional. Porque o Brasil hoje está sendo motivo de chacota internacionalmente, então Lula é um ator muito importante nessa construção, tem um papel decisivo na reconstrução do país internacionalmente.

OE. Um projeto seu na Câmara tenta vetar a participação de policiais nas eleições. Como enxerga isso aqui no Ceará, com essa representação ganhando força?
JA. Não é localizado só no Ceará. A politização dos segmentos militares, com a ascensão do bolsonaro, com esse discurso de militarização, de armamento, de intolerância, violência, ele acaba tendo um apelo sobretudo em setores militares que acham que vão resolver o problema da violência e da desigualdade e da criminalidade com o uso de ações violentas, inclusive com a eliminação e o extermínio das pessoas. É um fenômeno que vem crescendo em função de uma distorção na legislação que permite que segmentos militares possam, às vésperas das eleições, se filiar sem ter o processo de desincompatibilização adequado, o que a meu ver gera uma situação que acaba misturando papel das forças militares com a política e partidarizado os setores militares.

Eu sou totalmente contrário a isso, porque venho de uma formação militar também e acho que as polícias têm papel estratégico do Estado, cumprem um papel decisivo na segurança e na defesa dos cidadãos. E arma não combina com política, porque política é a arte do diálogo, a arte da construção da diversidade de visões. Se é militar e quer fazer parte da política, que se filie com antecedência, que se desincompatibilize dentro do prazo eleitoral, como qualquer outro servidor. Não pode ter esse privilégio.

OE. Qual você considera, até o momento, que deve ser a principal pauta para a eleição estadual do ano que vem?
JA. Hoje não tem dúvida que a pauta decisiva, pela crise social, econômica, crise sanitária que o país está vivenciando, uma crise grave com a volta inclusive da fome e da pobreza se acentuando a pauta central hoje é gerar emprego e renda para sociedade. É uma vergonha o país estar hoje com quase 19 milhões de desempregados, então penso que a pauta central hoje é a questão do emprego e a estabilidade democrática para o país.

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