Peças de trilho que remontam a 1880 são descobertas em obra no Centro de Fortaleza; veja imagens

Os dormentes, peças de madeira sobre as quais passam os trilhos, foram achados após um canhão ser desenterrado. Há ideia de exposição do material ao público.

Um pedaço da história da estação ferroviária João Felipe, no Centro de Fortaleza, onde agora está a Estação das Artes, veio à tona, em fevereiro de 2022, em escavações feitas no local. Na área paralela ao trilho desativado, onde hoje é possível caminhar, arqueólogos descobriram vários dormentes de madeira (peças colocadas na transversal nas vias metro-ferroviárias sobre as quais passam os trilhos) enterrados que remontam às estruturas da época da inauguração do local em 1880.

A área da descoberta está sinalizada devido aos achados arqueológicos. No total são 8 espaços abertos, das quais em 5 perímetros (quadrados de terra que não foram cimentados) estão ocorrendo escavações. Em 3 deles, já é possível ver os dormentes em detalhes, apesar do desgaste das estruturas.

Em outros 2 espaços, os trabalhos de escavação ainda devem avançar. A estimativa é que dure mais dois meses. Nas demais áreas, já houve abertura e foram encontrados alicerces de antigos galpões. Nesse caso, a opção foi pelo reaterro.

Canhão encontrada em terreno na Estação João Felipe
O local – a Estação Ferroviária e o entorno – é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Ceará (Iphan) como um dos sítios arqueológicos de Fortaleza.

Segundo registro da instituição, na área foram descobertos, durante as obras de restauro da Estação um canhão (na década de 1970, outros 3 canhões dos séculos XVII e XVIII haviam sido encontrados), fragmentos de garrafa de grés e de vidro, cerâmica e fragmentos de faiança de procedência inglesa.

Descoberta dos dormentes

Os dormentes foram localizados após um canhão ter sido encontrado por trabalhadores da obra em setembro de 2021, explica a arqueóloga do Programa de Acompanhamento Arqueológico da Estação das Artes, da ARC Soluções em Arqueologia (empresa contratada para fazer o acompanhamento arqueológico das intervenções), Vanessa Rodrigues.

estação joão felipe
Legenda: No total são 8 áreas, das quais em 5 perímetros estão ocorrendo escavações.
Foto: Kid Jr

Somente após esse achado, informado ao Iphan, é que a equipe da empresa foi a campo e começou a escavar a área, conforme indicação do local feita pelos operários que desenterraram o objeto. Como o território já tinha achados arqueológicos, o Iphan autorizou a continuidade da escavação e os dormentes foram evidenciados.

“A gente propôs (ao Iphan e ao Governo do Estado) deixar os dormentes à mostra, de forma a socializar com a comunidade, os moradores, os fortalezenses para conhecer um pouco da sua história e ver outras propostas. Outra opção é reaterrar. Mas o mais interessante, de fato, seria fazer um tratamento dos dormentes para que eles possam ficar preservados”.

VANESSA RODRIGUES
Arqueóloga

Ideia de preservação e visitas guiadas

Caso a opção seja por exposição do material, a estrutura, explica a arqueóloga, deve contar com vidro de proteção e um sistema de drenagem. Mas, antes, a ideia é realizar o restauro da madeira. “Colocar algum produto nesse material que é orgânico, para que ele não se acabe. É um material muito delicado que precisa ficar bem vedado”, completa Vanessa.

 

estação joão felipe
Legenda: Equipes propõem que o material seja conservado e fique exposto para acesso da população.
Foto: Kid Jr

Mas tudo isso ainda será analisado pelo Iphan e pelo Governo do Estado, inclusive para que seja ponderado o interesse e a viabilidade financeira.

Outra ideia a ser executada em paralelo é a sinalização do local com painéis explicativos sobre a atividade arqueológica realizada. Nesse sítio, diferentemente de outros, os achados não serão removidos, nem enviados à análise.

Eles são registrados junto ao Iphan, mas não são retirados do local. Isso porque no caso dos dormentes é executada a estratégia de cronologia comparada.

“Sabemos através de estudos etnohistóricos o tempo em que foi construído, diferentemente do período mais recuado. Essas escavações no Centro de Fortaleza são oportunidades de reencontrar essa história do Ceará”.

LUIS MAFRENSE
Coordenador de gestão do Programa de Acompanhamento Arqueológico da Linha Leste e da Estação das Artes, da empresa ARC Soluções em Arqueologia

A empresa informa ainda que está em contato com o Governo do Estado para incluir a visitação arqueológica na programação da Estação das Artes. “A ideia é estarmos no fim de semana, conversando com as pessoas, de forma agendada. É uma oportunidade de as pessoas conhecerem um sítio arqueológico em processo de escavação”, diz ele.

 

Estação João Felipe
Legenda: Imagem de 1909 da antiga Estação. O equipamento no Centro de Fortaleza é tombado.
Foto: Arquivo Diário do Nordeste

Diário do Nordeste questionou a Secretaria Estadual da Cultura (Secult) sobre a proposta de possível manutenção do material em exposição. A Secult, em nota, disse que os trabalhos arqueológicos ainda não foram finalizados, logo, “é necessário aguardar o fim para iniciar uma nova etapa de planejamento. Mas, reforçamos que todas as ações cabíveis estão sendo tomadas para proteção e posterior divulgação ao público dos achados”.

Quanto à incorporação dos achados à programação da Estação das Artes, a pasta reitera que como os trabalhos arqueológicos ainda não foram finalizados, “não é possível garantir o acesso do público ao local”.

Mas, o equipamento, continua a nota, “já possui um planejamento para posterior apresentação das peças, assim como também a proposta expográfica no Museu Ferroviário, que poderá integrar essa proposição”.

 

Canhão encontrada em terreno na Estação João Felipe
Legenda: Peça foi encontrado, em 2021, em terreno na Estação João Felipe
Foto: Copam/Secult

Patrimônio tombado

A Estação Ferroviária João Felipe que aproveitou a estrutura da Estrada de Ferro de Baturité (1873), foi inaugurada em 9 de junho de 1880, durante o governo de Dom Pedro II. O local é um patrimônio tombado na esfera federal (desde 1980) e estadual (1983).

A Estação já teve o nome de Central. Em 1941, o nome mudou para Estação Fortaleza. Já em 1946 mudou novamente para Estação João Felipe.

Em janeiro de 2014, a estação foi desativada. E em março de 2022, após anos de intervenção, o complexo Estação das Artes foi inaugurado pelo Governo do Estado no local da estação, que teve a estrutura preservada.

Fonte: https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/

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